“Haverá um dia em que me lembre de trazer um guarda-chuva”, lamentava o
homem ao retirar o chapéu ensopado. A calçada era sinuosa e em certas passagens
haviam poças d'água, a neblina anunciava o retorno da chuva; há está hora, seu
sapato estivera completamente encharcado, tal qual o chapéu. Pôs a mão no
bolso, tateando entre os objetos, a fim de encontrar seu último charuto, mas ao
levá-lo aos lábios notou que estava desfazendo-se, e que além do mais, demoraria em
acender. Embora fosse apenas uma neblina, o tecido de sua calça não fora
suficientemente espesso para proteger seus pertences. E de súbito, recordou-se
do bilhete; era tarde demais, já estivera despedaçado.
_ Alguém no céu
nutre um verdadeiro ódio por mim – Lamuriou o homem atirando o que restava do
bilhete em uma das poças, gotas salpicaram no vestido de uma velha que cruzava
por ele naquele exato momento. Em gesto de absolvição, parou, e curvou-se. A
velha o ignorou.
_Ei moço... -
gritava uma voz infantil bem adiante. Ao se aproximar, notou que não era uma,
mas duas crianças que aparentavam ter entre seis a dez anos.
_Não é mais hora
de crianças estarem na rua, vão para casa, seus pais devem estar preocupados! –
respondeu o homem com certa rispidez.
_O senhor
poderia só pegar nossa bola, ali está ela – apontou com o dedo o menor dos
pequeninos. “É a gota d’água, é bem
possível que algo mais me falte, ou se estrague nessa noite: perder os sapatos,
rasgar as calças...”
_
Definitivamente não crianças, não tenho tempo para isso... – mas ao fitar o
rosto do pequenino, mudou de ideia, ficou estonteado, o garoto estava pálido,
devia estar hipotérmico devido o frio
abaixo de14 graus.
_Pegarei essa
bola, contanto que vocês me prometam que irão para casa – propôs o homem.
_Já estávamos
indo; eu falei para ele não chutar forte! – explicou o mais velho, dirigindo-se
imperativamente ao seu colega.
O muro era
baixo, mas aquela altura da vida não tinha mais idade para acrobacias. Depois
de umas tantas tentativas, conseguiu enfim pular. A bola encontrava-se embaixo
de uma árvore, na realidade, pergunta-se se era ela de fato que estava
avistando, a neblina havia se intensificado e dificultava sua visão. Raízes
permeavam o terreno e quase caiu quando uma prendeu em seu sapato. “O que se passou por minha cabeça para
invadir uma propriedade alheia” refletia enquanto caminhava. Chegou
finalmente embaixo da árvore, contudo, contraditoriamente, sentiu ainda mais
frio, um calafrio cortou sua espinha, e começou a pensar consigo mesmo que
futuramente também traria sua jaqueta italiana. Tirou novamente o chapéu para
focalizar a vista, e logo percebeu que não era a bola que estava fitando ao
longe, mas sim, um boque de rosas mortas em cima de uma lápide. Agachou-se para
observar. Havia uma mensagem: “Aqui jaz Rafael e Henrique, mamãe sentirá
saudades eternas”. Outro calafrio percorreu-lhe a espinha, levou a cabeça e
olhou em seu entorno, a neblina havia cessado e se viu rodeado por dezenas de
lápides. Era um homem maduro, obviamente que estivera em um cemitério antes,
entretanto, o medo era um navalhava que o cortava. Retornou para si com os
olhos fixos ainda na lápide. O bafejo da neblina encobria as fotos, seu último
fio de coragem permitiu que perpassasse a mão sobre o vidro. As lágrimas lhe
vieram involuntariamente aos olhos; às duas crianças que num instante atrás
conversavam com ele estavam ali enterradas. “Mas
isso não é possível”. O pavor apossou-se com ímpeto, e inconsciente correu
desesperadamente. O muro estava próximo quando uma raiz prendeu em seu pé,
fazendo-o vacilar e arrancando-lhe o sapato. Num instante já estava ao chão,
apoiou as mãos em outra raiz e tentou erguer-se, mas o solo argiloso estava
encharcado e findou escorregando. Procurou o muro em gesto de súplica, e em
lugar disso uma mão se estendia diante de seus olhos.
_Posso ajudar
senhor? Parece-me assustado – indagava-lhe um jovem apoiado com uma das mãos
numa enxada. O alívio banhou-lhe a alma, “O
coveiro”, pensou.
_Vim pegar um
bola de duas crianças... – mas antes de terminar sua explicação, entre uma e
outra baforada, o coveiro retrucou:
_Tudo bem, peço
que me acompanhe.
_ O portão está
aberto? – perguntou o homem com voz tremula ao coveiro.
_Acame-se –
respondeu, encaminhando-se ao portão.
Prestes a chegar
ao portão o coveiro parou bruscamente, e virou-se de lado em direção a uma
lápide.
_ Não era a bola
que as crianças queriam que pegasse, nunca houve bola alguma, queriam que
contemplasse isso. Evitou olhar, pressupondo vislumbrar a face daquele jovem naquela
foto. Mesmo apavorado, ainda sim moveu lentamente seu rosto. Em vez do rosto do
coveiro, era o seu que estava naquela lápide esmaltada. Congelou; por mais que
quisesse, seus membros não lhe obedeciam, queria correr, mas parecia que algo o
prendia ali, queria chorar e as lágrimas não lhe viam aos olhos, queria acordar
daquele pesadelo.
_ Por caso
lembra-se de onde vem, ou mesmo qual seu destino, senhor? Assim como eu e
aquelas duas crianças no início, o senhor se nega a aceitar. Lágrimas rubras
escorriam pelo rosto do homem, rugas surgiam na testa, entorno dos olhos; e o
jovem indiferente ao definhamento do rosto do homem prosseguiu:
_ Há exatamente
uma semana o senhor faz este mesmo trajeto, pensado estar trabalhando, cheio de
compromissos. Mas não se engane; isso na verdade não passa de um mecanismo de
defesa do seu inconsciente. Vindo da escuridão, as duas crianças aproximaram-se
do jovem. Enfim, este concluiu com uma voz branda:
_ ACEITE! Assim
como eu e estas duas crianças, o senhor está morto!

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