Estado, Democracia e a administração dos medos
Por mais que se busque incessantemente, jamais o homem se sentirá totalmente seguro. Nos últimos tempos, com os avanços tecnológicos, surgiu uma vastidão de aparelhos destinados a proteção da sociedade – câmeras, alarmes, sensores, leitores digitais -, bem como um grande número de empresas que oferecem segurança particular, e mesmo com esse aparato, paradoxalmente não deixa de crescer o sentimento de insegurança. Zigmunt Bauman retrata o nascimento da sociedade moderna em consonância com crescentes medos humanos, e, a tentativa de administração desses pelo Estado Neoliberal, objetivando analisar as fontes desses medos, Bauman, acaba portanto, deixando um alerta para o crescimento da marginalidade,e, conseqüentemente, o esfacelamento da política moderna.
Sigmund Freud, em seu estudo sobre os medos humanos, fixa a impossibilidade do homem em lograr a plena segurança, primeiro porque não é possível (e certamente nunca será) controlar os fenômenos da natureza, no máximo, ainda podemos prevê-los, mas ainda sim, existe aí uma implicação que leva a outro fator de recusa: o ser humano será sempre passivo de erros. Portanto, uma vez ou outra, a previsão pode conter erros em seu processo analítico. Além disso, o corpo humano é altamente frágil, podendo repentinamente sofrer ocasionalmente algum mau no próprio percurso corriqueiro. Por fim, o principal agente responsável por garantir o bem-estar da sociedade – o Estado- e todo sua composição jurídica não atingem, também não se aplicam de igual maneira, a todos os indivíduos. Embora as camadas superiores da sociedade tenham esse conhecimento, não quer dizer que haverá uma descontinuidade nas tentativas de obter segurança, pelo contrário, isso é mais uma barreira as ser enfrentada, é tida como grande desafio. A questão é mais simples do que parece, adotamos uma civilização que negligência os limites naturalmente impostos, “conquistando” os lugares mais longínquos, então, não surpreende que oportunamente a autentica proprietária venha reclamar seus diretos de maneira hostil.
Porém, há um velho sofrimento que aflige a sociedade, no qual a origem está na minoria da humanidade, ora, e assim sendo, pode ser resolvido pela maioria, ou ao menos deveria. Trata-se da miséria, por mais que se combata ela sempre está presente, então, tendemos a suspeitar que da Política, do Estado, da sociedade. Para Castel, é a partir daí que o homem passa a isolar-se em uma casulo temendo a maleficência da sociedade, mas essa individualização acaba se apresentando como uma contra-mão, uma vez que sem a proteção da intensa de rede de relações o indivíduo encontra-se vulnerável aos ditames do mundo moderno. Foi exatamente no nascimento da sociedade moderna que o homem se viu nessa estrada do auto-aperfeiçoamento e da auto-constituição, contudo, com a rapidez das transformações, sobretudo no âmbito tecnológico, nunca foi possível está preparado. O espectro da inadequação irá para todo o sempre assombrar a sociedade inteira. Muitos encontram alternativa: a revolução. O estado moderno precisava tomar alguma providência para apaziguar os marginalizados, e é nesse contexto que surgem os direitos pessoais e políticos após tantas lutas. No entanto, os direitos políticos, isto é, aqueles que teoricamente garantem ao cidadão desempenhar um papel significativo na elaboração das leis, ficaram relegados as camadas mais altas. Os direitos pessoais, efetivamente, são constantemente ponderados por aqueles que detém os direitos políticos, de modo que “Não podemos estar seguros de nossos direitos pessoais se não formos capazes de exercer direitos políticos e fizermos essa capacidade pesar no processo de elaboração das leis”(Bauman, 2007, p.68). No que diz respeito ao sufrágio – o teórico direito de influenciar na composição dos governantes ao quais esses concedem aos pobres, porque julgam necessário para manter a ilusão da participação na política – desde sempre esteve controlado para manter a “ordem natural das coisas”, tanto é, que no Brasil já em sua fecundação houve inúmeras pré-condições, que podem ser sintetizados dessa forma: Somente poderia exercer o direito ao voto aqueles “que possuíssem recursos econômicos e culturais suficientes” . Certamente na atualidade a estratégia teve de ser mudada, mas com a mesma configuração, pois, “a pobreza (a antiga e a nova) gera desespero e submissão, suga toda energia na luta pela sobrevivência e coloca a vontade à mercê da promessa vazia e da fraude insidiosa”(D’Aracais, “The US elections: a lesson in political philosophy:populist drift, secular ethics, democratic politics” (aqui citado a parti de uma tradução manuscrita de Giocomo Donis).Em suma, os direitos políticos foram e são utilizados para arraigar as liberdade pessoais expressivamente a aqueles que detém maior de poder aquisitivo.
Para evitar a indignação já existe uma receita básica pregada freqüentemente: os problemas sociais estarão sempre presentes, por isso é necessário vencer os infortúnios da vida, é dessa forma que se pode obter a auto-confiança e auto-aperfeiçoamento tão importantes para o mercado de trabalho. Assistimos, hoje, a descrença da maioria da sociedade em seus direito políticos, mesmo com a ampliação do sufrágio a política se tornou um jogo de cartas marcadas. O estado moderno e a política estão em crise, enquanto as grandes corporações crescem com uma rapidez inacreditável, as tecnologias surgem a cada dia para substituir a mão de obra humana, o homem desconfia de tudo e de todos que lhe circundam e, aos poucos, perde seus escudos civis estando à mercê da perversidade do capital.
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