Os elementos do espaço
Se partirmos do pressuposto que o elemento é à base de toda dedução, tornar-se evidente que para analisarmos todo e qualquer objeto teremos que levar em conta os elementos que o compõe. O espaço deve ser considerado como um todo, no entanto, para chegarmos a ideia de uma totalidade, primeiro devemos examinar as partes. Ao dividir o espaço, cinco elementos manifestam-se, dentre eles: o homem, as firmas, as instituições, o meio ecológico e as infra-estruturas, todos eles, interagindo entre si, e gerando uma interdepedência.
O homem certamente é o elemento mais importante, pois é ele quem cria, destrói, modifica ou organiza o espaço, apenas ele tem a capacidade de fazer do seu lugar melhor ou pior, os demais elementos giram em torno dele. As firmas surgem com papel de fornecer ao ser humano os bens que ele tanto necessita, isto é, roupas, alimentos, transportes; e as instituições são responsáveis pela organização, regularização e normatização, além de teoricamente zelar pelo bem estar da coletividade. O meio ecológico é a natureza, abrangendo os rios, vegetações, minérios, modificada pelo trabalho humano. Finalmente, as infra-estruturas também são resultado do trabalho humano, ao mesmo tempo em que possibilita a utilização de outros frutos dele, é materializado e geografizado na forma de casas, plantações, caminhos, etc.
Esses elementos podem ser facilmente identificáveis dependendo do momento histórico que nos referirmos, mas também, praticamente irreconhecíveis na sociedade que entendemos como moderna, nela, o que prevalece é a desordem, e o espaço não poderia sair ilesa dessa confusão, tendo em vista, que é a sociedade que lhe dá vida. No atual momento, as firmas podem se disfarçar de instituições, impondo normas sociais ou regendo os indivíduos, e assim, assumindo a função que antes cabia ao estado desempenhar. A verdade, é que sem as luzes do conhecimento nesses tempos obscuros, não passamos de reles criaturas atordoadas nesse jogo de transfigurações.
È a interação dos elementos que definem o paradigma de qualquer sociedade, e tomando como exemplo a nossa, à saber de sua divisão de classes, rede de relações, padrão de produção e paralelamente a de consumo, assim como a exploração de matéria-prima, tudo ligado supostamente a necessidade biológica e social do homem, corroboramos a intricada relação entre firmas, instituições, meio ecológico, infra-estruturas presididas pelo homem. Portanto cada momento histórico designou tarefas distintas a cada elemento, bem como consequência, relações heterogêneas com os demais e o todo. Levando em conta o processo histórico é que alcançamos cada conceito, pois este, é subordinado ao conjunto e a conjuntura. Em verdade, o lugar irá influenciar diretamente os elementos do espaço, ou seja, cada elemento está sempre variando de valor, porque, de uma forma ou de outra, entra em relação com os demais, e essa relação são em grande parte ditadas pelas condições do lugar. Cabe lembrar, que, como citamos no início, o espaço é entendido como um todo, uma rede de relações, então se um elemento muda, obriga toda estrutura a mudar.
É conveniente notar, como se dá as relações dos elementos do espaço, já que cada um possuí sua particularidade, mas que depende do conjunto para assim se fazer, quando mencionamos o homem, estão englobando nessa expressão a população ou uma fração dela, este último, seriam grupos variados de acordo com suas características, - a idade, sexo, raça, nível de instrução, etc - essas classificações além de se relacionarem de maneira diferente entre si, também se relacionam distintamente com as outras classificações de outros elementos,e assim por diante, por exemplo, numa sociedade avançada, as crianças e os velhos mereceriam a proteção do Estado, enquanto os adultos seriam chamados a trabalhar, como um direito e dever. Sendo assim, quanto mais sistemática for a classificação tanto claras aparecerão as relações sociais e, em conseqüência, as chamadas relações espaciais.
Para percebermos espaço como uma estrutura, é preciso, primeiramente, traduzir o significado da palavra, para François Perroux (1969, p.371), estrutura se define por uma “rede de relações, uma série de proporções entre fluxos e estoques de unidades elementares e de combinação objetivamente significativas dessas unidades”. Com isso posto, verificamos que os elementos também podem ser verdadeiras estruturas. Tendo isso em vista, todas as estruturas possuem uma rede de relações em seu interior, que por sinal vai afetar todo sistema espacial, ademais, os componentes subestruturais se relacionam com estruturas diferentes criando estruturas complexas, assim como o espaço, que é a combinação de várias estruturas e subestruturas. Em outras palavras, haveria, assim, ações externas e internas, ainda com ações íntimas de cada parte, todavia, nenhuma das ações são independentes, seja sua força propulsora ou a consequência dessa. As palavras de Godelier, sintetizam bem tudo isso, quando diz que “todo sistema e toda estrutura devem ser descritos como realidades ‘mistas’ e contraditórias de objetos e de relações que não podem existir separadamente, isto é, de tal modo que sua contradição não exclua sua unidade. O conceito de espaço, é por assim dizer, o movimento da relações estruturais,do processo histórico, da particularidade do lugar e sua correlação com o todo.
Entretanto, estaríamos sendo irresponsáveis se disséssemos que apenas com isso absorveríamos toda complexidade espacial, algumas questões práticas impedem uma cômoda interpretação, como: seu constante dinamismo, sua extensão, a representatividade e os componente ainda incógnitos, se quisermos realmente buscar a imensidão espacial, primeiro devemos beber muito na fonte do conhecimento, segundo, sermos consciente que para um objetivo grandioso como esse, uma única mente é mais que insuficiente, e a terceira, é até lógica, uma incansável dedicação do grupo. Há uma premissa que deixa de ser passiva de escolha, para ser buscada sistematicamente, o objeto de análise seguindo a luz da história, mas, sobretudo, do presente.
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Santos. M. Espaço e método. Editora Nobel, São Paulo, 1985.
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